Feed on
Posts
Comments

Meus amigos,

desde o dia que publiquei a receita da Botto Bier Munchen Helles, muitos emails tenho recebido com dúvidas, especialmente quanto a utilização de 4 sachês de fermento W34/70 pra fermentar apenas 20 litros.

De uma forma corriqueira se convencionou acreditar que pra 20 litros de mosto a fermentar, medida meio que padrão não só aqui, mas em todo mundo, pra quem se inicia no hobby, um sachê de fermento seria o suficiente. Isso não é verdade absoluta. É preciso entender que há uma série de variáveis que determinará a quantidade de fermento adequada pro estilo de cerveja que se deseja fazer. Enfim, voltamos ao famoso DEPENDE, palavra mais que recorrente na arte de se fazer cerveja.

Mas do que depende? O que precisamos considerar?

Antes de responder estas perguntas, vamos analisar alguns pontos importantes no manejo do processo de fermentação:

1) Composição do mosto

Um mosto com maior extrato, densidade original, tenderá a nos fornecer mais álcool, pela maior quantidade de substrato pro fermento, dependendo de sua composição em fermentáveis ou não. No mosto precisamos também de nutrientes para levedura, cálcio, zinco, sódio, aminoácidos, entre outros.

Logo, um mosto com maior densidade necessitará de mais fermento. Se for um mosto com deficiência de nutrientes, o que não nos preocupamos muito, nós cervejeiros caseiros que fazemos cervejas puro malte, com insumos de ponta, necessitaremos de mais fermento, pois sofreriam as leveduras se tivessem que se reproduzir em ambiente pobre.

2) Tipo e dosagem de levedura

Primeiramente teremos diferenças entre famílias de fermento, ale x lager, gerando a primeira mais ésteres, cervejas mais frutadas, enquanto a segunda gera cervejas com menor presença em aromas de fermento.

A dosagem também é importante. Normalmente utilizamos um milhão de células viáveis de fermento X graus platos de densidade (~1 plato = 4 no densimetro de massa)por ml de mosto a ser fermentado.

Eis o cálculo mágico propagado na prática e literatura, o que pra gente caseiro é difícil de precisar: Quantidade de fermento = 1.000.000 de céls. X Gravidade (densidade) em platos por ml de mosto a fermentar. Vale dizer que este cálculo mágico também se sujeita a variáveis, principalmente à temperatura de fermantação, mas em linhas gerais costuma dar certo.

Se a dosagem for menor que a necessária estressaremos as células do fermento ativas, pois terão mais trabalho, forçando maior número de divisões celulares para converterem os açúcares, o que estereficará mais a bebida; e, possivelmente, elas não conseguirão converter todo açúcar do mosto em álcool e CO2, dependendo da quantidade de extrato e composição do mosto, deixando a cerveja com um doce residual. A fermentação também ocorrerá de forma mais lenta.

Outra questão importante é a proteção contra contaminantes. O mosto (rico em açúcares) resfriado é extremamente tentador pra bactérias, e um fermento viável e em boa quantidade atua como protetor da bebida, pois rapidamente suas células tomam conta do ambiente e, competindo pelo território, impedem a proliferação dos contaminantes.

Por outro lado, se inocularmos mais fermento que o necessário, teremos uma fermentação mais rápida, mais segura, mas uma cerveja menos esterificada.

Melhor sempre procurarmos informações do fabricante do fermento, buscando quantidades recomendadas!!!

3) Temperatura

Com uma temperatura mais elevada de fermentação teremos:
- Fermentações mais rápidas
- Maior risco de espumamento
- Maior formação e redução de diacetil
- Maior multiplicação celular
- Menor pH
- Maior formação de Álcoois Superiores

Por sua vez, com temperaturas menores de fermentação possibilitaremos:

- Maiores tempos de fermentação
- Pior redução de dicetonas
- Menores riscos de espumação
- Menor multiplicação celular
- Maior formação de H2S
- Menor formação de Álcoois Superiores

Obs: quanto mais se multiplicam as leveduras, mais se esterifica a cerveja, mais aromas frutados serão formados, variando estes de acordo com as características dos fermentos.

4) Tempo

Variará em função do tipo e quantidade de fermento, composição do mosto e temperatura de fermentação, principalmente.

5) Pressão

Quanto maior a pressão dentro do tanque, menor a esterificação e mais difícil a eliminação de compostos voláteis.

Visto isso, passamos a analisar o que queremos da cerveja a produzir.

No livro Brew Like a Monk, em certo trecho, é mencionado que algumas cervejas belgas, notabilizadas por aromas bastante frutados, buscam inocular uma menor quantidade de levedura forçando que esta tenha que se multiplicar mais para dar conta do recado, conta da quantidade de açúcar por fermentar. Isso é proposital. Quem opta por este tipo de método pretende que sua levedura se multiplique mais para fermentar, e se multiplicando assim gere mais ésteres (ácidos orgânicos + álcool), mais aromas frutados na cerveja.

No caso das lagers em geral, e especialmente no estilo Munich Helles, ésteres não são desejados, logo algumas medidas são válidas e necessárias pra se obter aromas mais limpos de fermentação na bebida.

Assim optamos por fermentar em temperaturas menores, o que diminui o metabolismo da levedura produzindo menos ésteres. Diminuindo o metabolismo, todavia, precisamos dosar uma quantidade maior de fermento, com isso assegurando que o meio esteja protegido de contaminação por outros microrganismos. Dosando mais fermento, menor será também a multiplicação celular, o que diminui a produção de ésteres. Ou seja, temperatura e quantidade estão intimamente interligadas.

Quanto ao fermento W34/70, o fabricante recomenda a seguinte dosagem:

“80 g/hl a 120 g/hl se a inoculação for feita num mosto a 12 – 15 ºC (53 – 59 ºF). A dosagem deve ser
incrementada quando o mosto estiver a temperaturas abaixo de 12 ºC (53 ºF), até 200 – 300 g/hl a 9 ºC
(48 ºF).”

Como queria uma cerveja limpa em aromas de fermentação, o menos esterificada possível, optei, então, por fermentar em temperatura mais amena e com uma dosagem maior de levedura.

A fermentação se inicia em 9ºC e uso 4 sachês de fermento (11,5g cada) para fermentar 20 litros de mosto, quantidade perfeitamente em conformidade com a recomendação do fabricante, a qual pode ser vista pelo link da Fermentis.

Trazendo a recomendação da fermentis pro meu caso, fermentando a 9ºC, a empresa recomendaria 40 a 60 g para cada 20 litros de mosto. Vale ressaltar que não consta na recomendação a adequação à densidade do mosto, o que é um erro, mas na maioria dos casos dá certo, pois levam em conta um mosto com até 1060, 1065 de densidade, densidade maior que a da Helles em questão. Não se atém também a perda de viabilidade com o processo de liofilização do fermento, bem como o tempo de guarda do mesmo, certo de que um fermento mais jovem terá mais células ativas e viáveis que outro já próximo da data de validade.

Usando 4 sachês, então, a relação é de 46g de fermento pra 20 litros de mosto, dose mais pro limite inferior que superior da recomendada pelo fabricante, isso pra se fermentar a 9ºC.

Bem, em linhas rápidas, é isso, pessoal. Tendo mais dúvidas é só falarem, estou às ordens.
Saúde!!!

Um brinde,

Botto

14 Responses to “Esclarecimento de dúvidas quanto a receita da Botto Helles”

  1. Jairo disse:

    Olá Botto e leitores do blog,

    A solução para a grande quantidade sachês é a criação de um iniciador para cultivo da levedura. Basta adicionar um sachê em 1 a 2 litros de mosto feito com estrato de malte em uma pequena jarra ou frasco, aerar bem, e deixar fermentar. Após a fermentação, recommenda-se resfriar o mosto fermentado na geladeira para a levedura sedimentar, descartar o mosto com cuidado para não eliminar o sedimento de levedura, e finalmente transferir a sedimento do frasco iniciador para o mosto de de 20 litros para femementação da cerveja.

    Abraço!

    É outra saída, Jairo, Jairo, propagar o fermento, e pra isso basta uma única célula.
    Abraço,
    Botto

  2. Saul disse:

    Botto,

    Ótima explicação dobre fermentação. Obrigado.

    Mas o que me chamou atenção mesmo foi a foto da Helles! Qual o segredo pra tanta transparência e limpidez? Só as 3 semanas de maturação a 0ºC dão conta do recado?

    Abraço.

    Olá, saul.
    A da foto está filtrada, por isso o brilho e transparência.
    trÊs semanas a 0º ajuda, mas não deixará a cerva assim.
    Abs,
    Botto

  3. Rodrigo disse:

    Olá Botto,

    Só uma dúvida, sua cerveja foi carbonatada artificialmente ou você referementou?
    Pra referementar uma cerveja que maturou por muito tempo, é necessário colocar mais fermento? qual seria uma quantidade indicada?
    Grato,
    Rodrigo

    Olá, Rodrigo.
    Nunca acrescentei mais fermento pra refermentar, mesmo no caso de cervejas engarrafas 4 meses após prontas, maturando a zero grau. Lembro-me que neste caso a fermentação ocorreu bem lenta, mas ocorreu. Mas seria indicado sim, dependendo do caso, a adição de mais fermento pra segunda fermentação na garrafa, principalmente pra cerveja muito alcoólicias e ou que maturaram por muito tempo.
    Abraço,
    Botto

  4. Ana Carolina disse:

    Olá. Sou Carolina e gostaria de um contato do blog. Se possível, envie para carolina.herrera@dialeto.net
    Obrigada pela atenção.

    Olá, Carolina.
    Desculpe-me a demora, mas os avisos de comentários estavam caindo no spam, infelizmente.
    Meu contato é leonardo@bottobier.com.br .
    Abraço,
    Botto

  5. Ana Carolina disse:

    Olá. Tudo bem? Sou Carolina e gostaria de um contato do blog. Se possível, envie para carolina.herrera@dialeto.net
    Obrigada pela atenção.

  6. sergio tartari disse:

    ola Botto

    Fiz o curso da acerva carioca em abril e logo depois comecei a tentar fazer ales tipo pale e de trigo,o negocio é que moro na zona rural de friburgo(parque estadual dos tres picos)uma regiao fria,atualmente a temperatura é bem abaixo do recomendado para a fermentaçao que é de 18c,fica em torno de 14 a 16c de dia e de noite baixa para 12c.Coloco o tanque de fermentaçao em uma caixa de papelao com jornal para que isole e que suba um pouco a temperatura,te pergunto entao,com um termostato acoplado a geladeira eu conseguiria elevar a temperatura acima da que esta no ambiente?

    Olá, Sérgio.
    No seu caso precisaria de um termostato acoplado a um aquecedor de ambiente, uma resistência ou cobertor elétrico, por exemplo.
    Abraço,
    Botto

  7. João Paulo Lopes disse:

    Parabéns pelo seu blog!
    Eu sou um iniciante no mundo cervejeiro e estou me apaixonando com isso tudo. Eu gostaria de saber de um mestre como você quais os primeiros passos e algumas dicas!como por exemplo quais os primeiros cursos a fazer o que é mais importante saber para quem ta iniciando etc. Parabéns novamente e muito obrigado!

  8. Diego Rocha.'. disse:

    Botto, obrigado pela explicação, está muito clara. Eu tenho 2 dúvidas, a primeira: eu fiz uma Brown Ale e clarifiquei na maturação com gelatina incolor, a cor e o sabor ficaram ótimos, bastante limpa também, mas eu pergunto, o uso da gelatina pode interferir na refermentação na garrafa? E a segunda: estou fermentando uma Dark Lager a 5 dias já e ainda vejo o fermento trabalhando ativamente, isso é normal? O que posso fazer, deixo fermentar até a atividade diminuir ou já posso transferir para o maturador?
    Um abraço.

    Olá, Diego.
    O uso da gelatina pode interferir, sim, na refermentação, se não deixar fermento suficiente em suspensão. Como saber, hummm, aí é que está o problema.
    Já quanto a fermentação, enquanto houver atividade, melhor deixar fermentando, salvo se quiser interromper a fermentação pra deixar a cerva mais encorpada ou algo do gênero. O problema é que refermentando na garrafa aumenta-se o risco de explosões, dependendo da quantidade de primming que utilizar, pois este mais os açúcares não fermentados pela interrupção podem gerar excesso de gás. Há de ser estudado pra estas hipóteses, e, sendo assim, melhor deixar atenuar tudo, ficando um processo mais ajustado e perfeito.
    Abraço,
    Botto

  9. Talita disse:

    olá, gostaria de saber se tem idéia de quando ministrará um curso de mestre cervejeiro em londrina-pr. faço curso na area de alimentos e seria um curso de grande interesse para mim.

    Olá, Talita.
    Já dei dois cursos aí em Londrina, linda cidade. Mês passado estive com o proprietário do bar Santo Prazer (http://www.santoprazer.com.br/breve/), o Vinícius, quem organizou os cursos anteriores, quando falamos de montarmos mais outra turma aí. Conhece o santo Prazer? Assim que houver quórum pra outra turma montaremos mais um curso. Se der procure pelo Vinicius, que está já correndo atrás.
    Abraço,
    Botto

  10. Chopp Kremer disse:

    Excelente explicação, parabéns !!!

    Opa, valeu.
    Abs,
    Botto

  11. Chopp Kremer disse:

    Parabéns pelo post !!!

    Valeu, obrigado.
    abs,
    Botto

  12. Lúcio Neves disse:

    Primeiro parabéns pelo blog !
    Qual a quantidade ideal de primming nesta receita para utilizar garrafas ?
    Existe alguma previsão de ministrar cursos na região Centro-Oeste (GO, DF) ?
    Grande abraço.
    Lúcio

    • Botto disse:

      Olá, Lúcio.
      Creio que na casa de 6 a 7 gramas por litro, não mais.
      Tudo dependerá da temperatura em que tiver maturado a cerveja, que determinará uma maior ou menor retenção do gás gerado na própria fermentação. Tenho usado bem menor primming nas levas que tenho feito. Mais que 8 NUNCA, por conta dos riscos de explosão, sem falar da desnecessariedade.
      Abraço,
      Botto

  13. Renato Pudo disse:

    Grande Botto!
    Esse post sobre a Helles foi providencial. Esse estilo é justamento o próximo que vou fazer. Pelo verão e pelas Helles tomadas na Alemanha na minha última viagem rs.
    Sucesso,
    Renato Pudo

Leave a Reply